Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Incomoda-me pensar que as férias já acabaram e que não descansei deveras... Passeei bastante, saboreei momentos maravilhosos de pura contemplação, sentada na areia húmida da praia, deixando o mar tocar-me os pés arenosos, com a cabeça encostada no ombro da pessoa que queria, envolvida nos seus braços a acompanhar os avanços e recuos das ondas, um pouco como fomos um para o outro na nossa vida, entre avanços e recuos até ao reencontro...e o pôr do sol, esse cliché maravilhoso de que nunca tinha gozado... sim porque sou do interior e a praia é um luxo, talvez pareça ridículo aos banhistas regulares, "litorianos" natos, mas eu conto pelos dedos de uma mão as vezes que pisei a areia da praia... estes meses de pausa escolar não deram para metade do que queria e passaram a correr, sem me dar tempo para planear, ou para pensar muito... mas quando tive os meus pequenos momentos de introspecção acabava sempre por atracar no passado, há tanta coisa que me faz falta e que já não volta... tantas pessoas que deixei de ver e já nem faz sentido perguntar onde estão... já há um tempo que não me rendia à nostalgia e há melancolia, traços intrínsecos na minha pessoa :)... mas gosto de várias coisas no meu presente... gosto do curso, gosto da minha casa aqui onde estou, adoro a paisagem nocturna da encosta da serra, com pequenas luzinhas que iluminam o meu quarto todas as noites... gosto de ir passear ao jardim, de comprar o jornal e ir para a esplanada ler enquanto tomo um chá... gosto da matéria nova que é dada em tom de piada, que só aquela professora sabe dar... mas quando estou sozinha aumenta o vazio daqueles que já partiram da minha vida... e daqueles que fazem parte delas e sinto tão ausentes e distantes, sinto-me tão impotente a maior parte das vezes quando me parece que sei exactamente a solução para acabar com o kaos da minha vida e não a posso utilizar... e revolto-me, chamo nomes ao Lá de cima e aos cá de baixo e acabo por me render às evidências... que se alguém tem culpa das minhas desgraças não se acuso e deixo-me rir numa gargalhada conformista que retoma o curso normal desta vida atribulada... começa mais uma etapa longa, cheia de desafios, e eu já me "inscrevi" em mais do que aqueles em que consigo estar... logo se verá como corre, bem ou mal, há sempre algo a aprender, nem que seja que definitivamente eu não tenho o poder da omnipresença ou da minha própria multiplicação...



Quarta-feira, Março 11, 2009

Acordei esgotada, mais um dia em que a noite não me deu descanso e a manhã parecia não me querer despertar… arrastei-me pala casa, deambulando e deixando tarefas inacabadas, como um rasto desastroso… olhei as minhas mãos toscas e melancólicas, meu ar apático… a acrasia pregou-me ao sofá e o meu olhar perdeu-se algures no espelho da sala, que me respondeu com um ar de repreensão …um reflexo pálido, quase doente, uma postura encurvada sobre si mesma numa contemplação perdida e descrente… o reler da revista mediática que é a minha vida, deixou-me meio perdida em pensamentos, divididos num misto de sofrimento e divertimento quase sádico, entediando-me com questões vazias sobre o meu propósito na vida… a verdade é que é fácil impingir grandes ambições e atacar as desistências dos fracos, mas quando as adversidades se nos colocam nos ombros com um peso colossal, dolorosamente cravadas na pele, a tentação é desistir, ceder à pressão e convencermo-nos de que não somos capazes… sempre me achei mais que isso… como a vida nos trai…Sinto que estou no rumo certo mas falta algo nesta vida que levo agora, a eterna insatisfação que arrasta consigo as crises existenciais parece voltar sempre num ciclo vicioso sejam quais forem as circunstâncias, e lá fico eu como uma construção oscilante de um jogo de peças sobrepostas numa plataforma distante…Ando desligada das pessoas, a velha sedutora tentação do isolamento, que hoje completou o seu ciclo e me atirou para este marasmo, de uma solidão interior onde ainda não chegas, mas por vezes iluminas…queria-te comigo hoje, porque me puxas deste labirinto que crio à minha volta, porque afastas esta tristeza do meu rosto com o teu sorriso, secas as minhas lágrimas quando surges como o sol quente que me aquece no fim da tarde… eu sei que te tenho mesmo quando não estás, mas aí de longe não chegas cá dentro, onde os dias por vezes não nascem, onde a noite é mais fria, os candeeiros são mais foscos e os jardins há muito deixaram de existir, restam apenas os bancos, onde me sento na penumbra da noite a contemplar a mística da Lua… nascem mágoas e frustrações nas palavras do poeta esmorecido, no pintor falido e até no guitarrista sem canções. Às vezes, neste meu reino, a felicidade parece fugir e a dor vem logo a seguir subtilmente… deixando-se ficar… entranhando-se aos poucos sem razão aparente… e quando a sinto a apoderar-se de mim, sou resgatada para bem longe, dou por mim a sorrir, quase que embriagada na calmaria doce que nos envolve e nos leva para um mundo só nosso, protegido por um imenso amor…




Quarta-feira, Agosto 06, 2008

Ela procurou-o, mais um capítulo falhado na obra da sua vida, as lágrimas sobrantes, nos olhos tristes, guardou-as e derramou-as nos ombros dele… novamente nos seus braços encontrou a esperança, e nos seus olhos doces um brilho que a iluminou para não cair na terrível e dolorosa escuridão… a mão dele pegou na sua e veio a leve calma, nela o tímido sorriso nasceu, como um sol a rasgar um céu nublado e tempestuoso… ele olhava-a, firme e distante, pelo menos era o que ela via nele, como um salvador errante prestes a dispersar, e ela assustada e hesitante pedia-lhe baixinho que não partisse, que permanecesse simplesmente ali, junto dela, para que não sofresse sozinha, para não se perder de si… ela fugia de uma vontade crescente, a de querer por mais tempo sua companhia, a de ter ao seu lado a cada dia mais do que um amigo atencioso, ir muito além do abraço caloroso que recebia sem recear…os receios vinham na penumbra da noite, quando se recolhia na insónia nocturna, quando tudo passava à frente dos seus olhos e parecia uma nuvem turva e soturna… as dúvidas caíam sobre a cabeça dela como grossas gotas de chuva e escorriam-lhe pelo rosto, confuso e abatido, ela lavava-o com um estranho alívio, uma estranha certeza no meio da dor…tentou fugir-lhe, ela racionalizava tudo à sua volta, tentando encaixar as peças que sabia não pertencerem ao mesmo puzzle e caía de novo de joelhos no chão, como uma criança perdida com lágrimas esquecidas a bailarem-lhe nos olhos, o peso da impotência e do fracasso sobre os ombros deixaram-na ali assim, contemplando o passado que costas voltadas pró futuro, numa paragem cósmica, uma pausa dolorosa mas necessária… hipóteses possíveis; fugir de uma vontade e de um sentimento refugiado mas crescente, ou afastar-se de tudo, do sofredor e do abrigo, perder o contentamento e um amigo e regressar a um casulo isolado… ela bem sabia que já não conseguiria lá ficar, nesse casulo, há muito rasgado, que só lhe serviria para fugir onde não haveria mágoa, nem dor, nem felicidade… uma simples apatia, uma letargia espalhada por um pátio sem formas, uma aceitação de que a equação era impossível, sem soluções… Não, ela não o faria, fugir é para os fracos e ela soube-o sempre ao longo da sua vida, ela não faz parte desse grupo, não se pode sequer dar a esse luxo, fez as suas escolhas, sabendo que a sua felicidade lhe custaria um amigo, uma pessoa demasiado importante para ser fácil de perder, demasiado presente para ser fácil de esquecer, e demasiado marcante para conseguir esconder a lágrima derramada de o ver partir… ela sabe que o perdeu, outra vez, mais precisamente, três vezes em pouco tempo, cada uma delas mais profundamente receando agora jamais tê-lo sequer no seu campo de visão… “acabou tudo” disse-lhe ele, ela no fundo não acreditou, há coisas que não se esquecem nunca… disse-lhe um adeus subtil, como quem vê partir para a guerra um ente querido, e que, sabendo que vai sofrer, deseja simplesmente que regresse um dia, diferente, melhor ou pior, pouco importa, mas que volte e diga que está tudo bem. Ela quer-lhe bem, mas ele agora não sabe isso, não consegue saber... Ela conforma-se agora com a despedida, sobre o seu ombro tem um braço amigo e, espera ela, alguém apaixonado e pronto a lutar, ambos acreditam agora que estão exactamente onde deveriam estar, que a vida e o tempo convergiu para que voltassem a estar juntos, ali naquele momento, como tal, resta-lhes agora encarar isso com aquele sorriso que lhes nasce naturalmente quando se olham, como o sol e lua quando se encontram e criam uma maravilhosa paisagem no horizonte…uma cumplicidade que os envolve de cada vez que se tocam e que não conseguem mais disfarçar. Agora é hora... metas? Não existem, o caminho esse há muito que é percorrido, agora que se encontraram de novo numa encruzilhada, vindos de caminhos bem diferentes, dão as mãos, ela aperta a dele com força e ambos caminham na mesma direcção, desta vez juntos, ambos mudaram, mas a paixão renasceu na mudança, talvez mais forte, e à luz das diferentes luas, partem confiantes pela noite clara, sem sombras e alguns medos…

Reflexões

Reflexões… deixo-me arrastar para uma praia distante e observo atentamente a costa longínqua de onde vim, tento agora discernir as formas de um quadro ao longe pintado, uma espécie de cubismo e surrealismo que culminam numa tremenda loucura… sorrio… Vejo as intrigas vaguearem nas sombras de cada personagem “inocente”, e as máscaras cobrirem as caras de dissimuladas amostras de gente… persigo as minhas sombras, confronto os assombros que teimam em me seguir, escondem-se nos escombros das mentiras com que lamentavelmente me tentaram iludir… Apercebo-me que a sinceridade é uma linha ténue no limite da íris de um olhar, de uma cor tão subtil e de uma raridade quase hostil que não se chega a revelar… a sua presença é inquieta e a sua forma é incerta escondida num olhar angustiado, a vida é uma enorme peça, um teatro de travessa num qualquer palco improvisado… Faz-me confusão esta massa de gente com as prioridades trocadas e as necessidades desprezadas, que se esgota no consumo excessivo de falaciosos prazeres, que culminam numa mão ilusoriamente cheia, de fugidios grãos de areia que se desvanecem em meros quereres… as batalhas ganhas são tidas como suficientes e cansam-se de lutas sem resultados imediatos, por isso, caiem de novo em caminhos deprimentes e de histórias imaginadas se fazem autênticos relatos… vejo esta pessoa alienada, que tem uma estranha satisfação pela desgraça alheia, quando nem a própria vida sustenta, que se acomoda ela própria numa enorme lixeira de uma ignorância difusa e bafienta… refugio-me de novo nas minhas montanhas rochosas, nas memórias carinhosas que guardo com um precioso gosto, de quando mergulhava-mos nos riachos e via sorrisos ingénuos, mas sinceros, em cada rosto… guardo todas as recordações; cada sorriso único em intensas paixões, cada amor passado que ficou, cada amizade perdida que marcou, guardo todas elas em forma de diamante de uma perfeição cobiçável e incerta, que concentra em si um mistério penetrante que na sua transparência me reflecte a face deserta…

Terça-feira, Julho 01, 2008

Escrevo…puxo em cada traço que escrevo mais uma linha do emaranhado de teias, de fios e nós e frases meias, que envolvem meticulosamente os meus pensamentos… uma dor na alma, uma estranha calma e uma outra angústia, entranhada em fibras de sangue dessas que amarram e rodeiam o meu penoso coração… mais uma encruzilhada, um coágulo que me bloqueou de novo a entrada para o meu abrigo de respostas, de janelas fechadas e outras expostas que exibem uma paisagem límpida e decifrada…não sei se é saudade ou serenidade, ou se numa triste leviandade tudo me parece clarear, tu partes sem partir, no outro ponto um sol nasce sem vir, numa brincadeira de passado e presente bem planeada… nos meus olhos afloram por vezes lágrimas, que me lavam o olhar triste ou o estranho sorriso, que prevêem o inferno ou o paraíso, num jogo de Xadrez de peças pesadas… cavaleiro recua em estranhas pisadas, rainha avança em cautelosas passadas, numa prudente e lenta jogada, olhar turvo, lágrima derramada, faço a jogada final… hesito, há ainda uma jogada tua que não esperava, enquanto um adversário ao meu lado sussurrava estranhos murmúrios que eu não conseguia compreender, a mão dele no meu ombro altera-me a calma, seus olhos confusos distraem-me a alma que tentava a salvo se manter… não sei se deseja ficar ou partir numa viagem sem volta, e tu vens e falas-me com uma racionalidade que me revolta e que me perco a tentar perceber… recolho de novo à minha passarola de mil vontades, tentando meus sonhos e pesadelos decifrar, as outras mil, que acorram sem entraves, sei que viram com quem quiser ficar… E aqui paro de novo debaixo da minha arvore confidente, em rocha sólida sentada, folhas secas ao sol poente, contemplando no horizonte o mesmo nada…e espero, serenamente espero, que nesta fúria ventosa e instável, me cheguem as respostas por que espero ansiosa, para por fim a esta demanda interminável…

Sábado, Março 15, 2008

Os meus olhos não se fecharam…


O amanhecer vem agora chegando, sorrateiramente, cobrindo a paisagem que me preenche a janela do quarto enquanto acalma esta ansiedade asfixiante… Não consegui dormir, os meus pensamentos resolveram abrir guerra com um role de emoções e esta discordância desperta-me para um reboliço de confusões…Mais uma vez, o derradeiro conflito entre o passado e o presente… O ser humano tem o hábito de alimentar veemente os seus desejos, e, desde que estes não se realizem, permanecem vivos indefinidamente... partida da vida, quando a concretização destes quereres desmedidos se torna possível, outras barreiras se erguem, tão rapidamente que parecem já parte dos desejos, que nos impedem da satisfação através dos mesmos pois novos se interpelam… e como o karma é terrível e não permite pegar nos caminhos do destino e intersectá-los como queremos, que remédio temos, senão escolher o hipoteticamente correcto e, lá permanecemos nós sentados, pensativamente, em mais um dédalo da vida… Bem tento consolar-me sonhando acordada, que um qualquer cavaleiro andante me aguarda num desses trilhos, em que sabiamente devo entrar, mas vem o pôr do Sol que não mais me ilumina, cobrir esses sombrios caminhos, e aguardo que o mistério da noite me envolva, enquanto a sua escuridão me domina… numa excessiva procura do verdadeiro fado e consoante fuga da demência, lavo o rosto com algumas lágrimas e enxugo com o cabelo sua dolência…
P.S: Escrito algures no ano de 2007, apenas publicado agora..

Sexta-feira, Março 14, 2008

Cifra em mim...




Estática, observo uma esplanada e vejo o dia passar…passa com ele uma nuvem barulhenta e estonteante, perturba-me o devaneio irresponsável e ilógico, sem pretensão ou satisfação possível… devora-me esta revolta da mediocridade para que caminhamos alegremente, num suspiro discreto de um ou outro iluminado desesperado, mas quieto… porque a quietude é uma rotina cómoda e a rotineira quebra que se busca, não passa de um atenuante engano da frustração vivida… as buscas sem resposta espalham-se entre “post its” de afazeres sonhados, de deveres esquecidos e de pecados perdoados e fica a monótona melancolia, essa que me ataca e acusa com razão, pela minha revelia escondida e pela luta perdida pela qual não respondi, por cada pessoa esquecida e cada felicidade merecida que já apaguei… As pessoas que amei e me amaram, que na verdade não me perdoaram, deambulam anonimamente em mim, como semblantes em tormento, num assombro periódico que me afronta o pensamento…o vazio restante preenche-se por fragmentos do que fui, espelhados pelo conformismo em que secretamente me refugio, quando o desespero se apodera de mim… olhar triste, assustado e angustiado, vejo no espelho um eu mudo e indignado que atiro para o escuro cada vez que cerro a porta do meu guarda-fatos, procuro-o quando me sinto perdida do que sou, apesar de nunca encontrar aquilo que penso ser… às vezes sorrio quando recordo a irreverência de criança da qual sempre me orgulhei, e que hoje procuro desesperadamente de cada vez que me apercebo que novamente me conformei… tenho aquela sensação… a mesma de quando se sai de casa e se sabe instintivamente, genuinamente que nos falta alguma coisa, eu bem sei que sim, mas tenho os olhos cobertos de uma névoa triste, de uma lágrima que não desceu, só desfocou a minha realidade… e aqui estou eu num qualquer impasse psicológico, numa encruzilhada social, num espaço paralelo ao meu, numa barreira físico-ilusória com a qual embato insistentemente, mas permanece enigmaticamente por derrubar… busco na arte escondida e na dança esquecida uma resposta a esta sensação, procuro até na beleza do teatro e na ciência que me aguça a sede de sabedoria, e junto tudo num estúpido nada, numa incompreensível simbologia, que tento decifrar numa busca sem fim, mas que faça, se sei que esta cegueira pálida, será suprimida somente pela cifra em mim…


Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Sou pintora

Sou pintora...
Pinto os traços vivos que se escondem nos contornos das gargalhadas, pinto as vincadas rugas da sabedoria, pinto o solitário sofredor no fundo das escadas e a mulher que provoca com sua
ousadia… deixo cair pingos de tinta nas faces chorosas em padecimento, pinto o sorriso forçado que mascara o tormento… percorro as ruas e pinto cada toque inocente, cada olhar penetrante no incerto, cada brilho sonhador que se escapa, cada alegria vazia no deserto…
Adoro estampar em tela as colunas lustrosas de um antigo monumento, ou até as senhoras pomposas que nele se laureiam a passo lento… sento-me em bancos de jardim a ouvir os murmúrios dos segredos escondidos, daqueles que um dia se amaram e hoje vagueiam de costas voltadas e olhares perdidos…
A minha tinta vem da natureza humana, da vida mundana, que transpira sentimento… e eu aparo cada gota caída, cada imagem saída de um quadro pestilento… A minha tela é a folha em que escrevo, a traços claros, momentos de rara beleza, ou por outras vezes rabisco desabafos, que contam minhas histórias de felicidade ou tristeza…
Acabo agora a minha tela, desenhando escuras sombras de escárnio e mal dizer, pois não há quem se safe em vida, de por estes vultos ser perseguida, ou que consiga deles se esquecer…
A nossa dignidade consiste no pensamento.
Procuremos pois pensar bem.
Nisto reside o princípio da moral..

Autor: Pascal , Blaise